Feror ego veluti sine nauta navis

December 10th, 2008 nosrevla

Welcome to Boston

Se você morre de medo de ratos não venha à Boston. Sinceramente, eu nunca morei em um lugar com tantos ratos à volta de maneira tão fácil. Uma das melhores atrações enquanto você espera o metrô na plataforma é contar quantos ratos, dos tamanhos mais variados, andam livremente para lá e par cá entre os trilhos. Se preferir, dê um passeio pelos muitos jardins da cidade, mas não confunda um rato com um esquilo. Sabe o que é pior nessa história toda? eu já morei no terceiro andar de um prédio de apartamentos, que era frequentemente visitado por visitado um desses inusitados hóspedes. É que eles se cansavam de morar no porão do prédio (onde fica a lavanderia) e resolviam mudar-se para lugar mais apropriado às suas necessidades, eles saíam de férias para o andar de cima. Felizmente, o prédio em que moro hoje nunca houve esse problema. Rato é rato e é nojento em qualquer lugar, seja em Boston ou na Disneylandia.

 

 

Gloriantur et letantur

April 22nd, 2008 nosrevla

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 Ontem, 21 de abril, também foi feriado aqui em Boston: Dia do Patriota. Um feriado que comemora o início da guerra da revolução que resultou na independência do país. Como tudo começou aqui no estado de Massachusetts, particularmente na cidade de Boston e cidades vizinhas, nada melhor que um feriado para comemorar. É um daqueles feriados estranhos em que tudo funciona normalmente e somente a burocracia estadual e municipal fecham. Porém, muita gente não trabalha nesse dia porque nele acontece a Maratona de Boston que é, segundo os entendidos, uma das mais importantes do circuito de maratonas mundiais. Já na sua 112 edição, a maratona reune milhares de pessoas, 26 mil corredores nesse ano, e é um acontecimento que envolve quase toda a cidade durante uma semana. Assisti pela TV as largadas que acontecem na cidade de Hopinkton e depois fui para o local de chegada aqui em Boston me juntar as cerca de 1 milhão de pessoas que vibravam nas ruas para assisitir os grandes campeões africanos ganharem mais uma vez como já acontece por mais de 10 anos: deu Kenia no masculino (Robert Cheruiyot- também vencedor da São Silvestre já por 3 anos), Etiópia no feminino, África do Sul no masculino de cadeira de rodas e Japão no feminino de cadeira de rodas. 

A grande disputa do dia foi entre a etíope Dire Tune e a russa Alevtina Biktimirova. As duas vieram pau-a-pau desde a largada. Dire Tune ganhou com uma diferença de 2 segundos com uma vibração incrível dos que assistiam. 

Depois do triunfo do pelotão de elite começou a chegar a grande massa de corredores. Emociona ver o esforço, dedicação,  coragem e alegria contagiante de muitos corredores ao fazerem a última curva e verem lá no final a linha de chegada somente a 1 km de distância. Foi uma festa bonita de se ver.

Aos poucos vou aqui treinando para a minha primeira maratona. Em agosto participo de uma corrida de 10 km no estado de Maine. Minha vontade é tomar parte na  Corrida de São Silvestre ainda estou pensando no assunto. Alguém se habilita a correr comigo? Só depois de ser classificado com um tempo mínimo em uma “maratona aberta” é que posso me inscrever na maratona de Boston. Um dia, quem sabe?

 Aliás, leio todas as semanas a excelente coluna e conselhos do professor Renato Dutra na Revista Veja. Ele trata exclusivamente do tópico de corridas com excelente dicas. Se você está iniciando a sua “carreira” a coluna do Renato é um bom lugar para começar.

 

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Sed eligo quod video

April 18th, 2008 nosrevla

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 Nada melhor do que sentir na pele a temperatura subir depois de quase 6 meses vivendo em um frio onde a temperatura variou entre 15 negativos e 10 positivos. Levou 165 dias para a gente experimentar 21 graus na quinta-feira passada. A cada inverno vem a mesma pergunta: o que é que estou fazendo nessa terra fria? Mas agora é primavera, não está quente como um carioca gosta, mas é a melhor coisa que temos nos últimos 6 meses. Também tem essa maravilha de ver as árvores mudarem, re-nascerem em diferentes tonalidades de verde. O verão já está quase às portas da cidade e, não se engane, calor aqui é também de matar. Inverno é inverno e verão é verão.

Com a mudança de temperatura lá fora começo a mudar meus hábitos também: deixo de correr na academia e passo a correr ao ar livre, deixo o carro na garagem e ando por aí de bicicleta.

Corridas começaram a fazer parte da minha vida mais metodicamente no ano passado. Corro pelo menos 3 a 4 vezes por semana e intercalo com algum trabalho de musculação moderada. A cidade de Boston é excelente para se correr. Uma cidade com ar de grande mas que no íntimo é pequena o suficiente para se andar e apreciar-se os muitos pontos históricos. Planejo minhas corridas de acordo com os monumentos históricos e cada vez que passo por um deles faço uma revisão da sua importância para a história da cidade, do país ou do mundo, se for o caso.

Ontem corri por uma hora uma distância de 7 milhas (mais ou menos 11 km).  Segue abaixo a lista de alguns lugares históricos em que identifiquei no caminho:

 

Cansei de colocar links de todos os lugares históricos que passei enquanto corria. Só agora vejo que realmente Boston tem um monte de coisas interessantes bem próximas uma das outras.  Essa página do  The Freedom Trail apresenta mais uma variedade de lugares onde passei.Por falar em corridas, esse fim de semana tem 2 maratonas na cidade. No domingo acontece a maratona que vai qualificar a atleta que representará os EUA na categoria feminina nas próximas  olimpíadas. Na segunda-feira, feriado local, acontece a 112 edição da Maratona de Boston.   A cidade está cheia e tem muita coisa interessante acontecendo. 

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Were diu werlt alle min

January 25th, 2008 nosrevla

Were diu werlt alle min

von deme mere unze an den Rin

des wolt ih mih darben,

daz diu chunegin von Engellant

lege an minen armen.

Posso falar com toda segurança de que eu nunca havia pensado em vir morar nos EUA. Não via a possibilidade ou o interesse que me impulsionasse para tal. Uma amiga americana na universidade em Pietermaritzburg insistiu para que eu  pelo menos fosse até Durban e solicitasse o visto para os EUA, na remota possibilidade de que eu decidisse  visitá-la mais tarde na cidade de Menphis. Por causa de muita insistência e com muita má vontade, mas o que a gente não faz por uma amiga de voz doce, peguei uma das lotações para Durban e me aventurei em procurar o consulado americano. Preenchi os papéis necessários, entreguei no guichê e perguntei quantos minutos teria que esperar. A informação veio algum tempo depois: “volte aqui em 2 semanas e teremos uma resposta. Levei um susto. Era uma quarta-feira e eu estava de viagem marcada para Londres no domingo. Meu passaporte não poderia ficar preso no consulado numa pilha de papéis esperando a burocracia de um serviço público. Expliquei para a funcionária de que não poderia esperar e que gostaria de ter meu passaporte de volta. Ela ficou desconfiada e até insinuou uma a possibilidade de que meu passaporte não fosse legítimo. Como esse povo gosta de uma palhaçada. Eu insisti, até com certa ignorância, em ter o meu passaporte de volta porque não tinha mais interesse algum em tirar  visto para lugar nenhum. Muito relutante, a funcionária respondeu com o famoso ‘agaurde um momentinho, por favor’ e sumiu entre os cubículos daquela repartição pública. Voltou algum tempo depois com o passaporte na mão devidamente ‘vistado’ e pronto para a entrada nessa terra aqui. A única diferença é que havia me dado um visto de 2 anos em vez de 10 anos que era ‘costume’ na época. Sem problema, na minha cabeça eu nunca iria precisar daquele visto mesmo, mas fiz a vontade de uma amiga. 

Já que estava em Durban, fui visitar meu amigo Carlos, o único brasileiro que tinha contato na África. Carlos fazia doutorado em música na mesma universidade que eu, só que no campus de Durban. Começamos os nossos cursos no mesmo ano, aliás, a primeira vez que vi o Carlos foi no aeroporto em São Paulo quando nós dois estavamos nos preparando para pegar o mesmo avião para Johannesburg. Notei que ele segurava um envelope com o timbre da universidade. Depois disso, nos tornamos amigos. Carlos terminou o curso de doutorado em música e voltou para o Brasil onde hoje trabalha fazendo aquilo que gosta, fazendo música e tocando tanto em escola de samba quanto em orquestras sinfônicas. Quanto a mim, perdi o rumo do Brasil e segui outros caminhos.

Tenho que admitir que a Sarah estava certa e que foi bom ter tirado o visto just in case como ela falou tentando convencer-me. Viajei intensamente pela Europa e acabei vindo parar em Boston onde, por coincidência, Sarah também foi parar enquanto fazia o mestrado em teologia na universidade de Harvard. Estou por aqui até hoje consciente da possibilidade de que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento e eu posso parar em lugares menos prováveis. 

 É engraçado dizer isso, mas, meu relacionamento com Boston é antigo, pelo menos na minha imaginação e capacidade de inventar coisas na minha mente. Lembro-me de uma situação que aconteceu quando eu era adolescente. Não lembro as circustâncias (melhor dizer que não quero mencioná-las aqui), mas eu acabei na presença de um estranho que, intrigado com o meu nome, perguntou se eu tinha parentes nos EUA (agora sei que tem muita gente por aqui tem o mesmo nome que eu no sobrenome e normalmente tem um H antes do A). Não sei porque e de onde tirei a história, mas minha mente viu uma possibilidade de viajar longe na imaginação: disse que tinha familiares morando em Boston, mesmo tendo consciência de que tudo que sabia sobre Boston era o nome da cidade que, por alguma razão, soava bonito na minha mente. Mal sabia eu que um dia eu acabaria morando na tal cidade. Estou certo de que tenho alguns “poderes inconscientes” que acabam fazendo coisas acontecerem em minha vida mesmo que eu não as planeje ou visualize mais do que um sonho ou vontade imaginativa. 

Provo meu ponto: em um dia distante na minha história de vida de menino em Nova Iguaçú, estava eu sentado em frene da TV tarde da noite assistindo a um desses concertos sinfônicos da madrugada. O evento se passava no conceituado Carnegie Hall de Nova York. Lembro-me bem de que assistindo ao concerto eu pensei: Se eu pudesse ir à Nova York um dia, eu gostaria de visitar o Carnegie Hall. Eu não tinha qualquer conhecimento do que era ou da importância daquela casa de concertos, mas o nome e o fato de estar sendo apresentado um concerto por lá foi motivo suficiente para despertar o meu desejo de visita. Pensei isso e provavelmente dormi porque ninguém aguentava tais concertos da madrugada sem cair no sono, afinal, não era essa a função de tais programas? Passaram-se os anos e eu acabei visitando Nova York pela primeira vez há 9 anos e  incontáves vezes depois disso. De vez enquando lembrava-me daquele epsódio de menino, mas nunca fiz qualquer esforço para visitar o Carnegie. Cheguei até a esquecer do acontecido até que me vi dentro do Carnegie Hall pela primeira vez na minha vida. Caí na real de que aquela era a primeira vez que entrava naquele lugar. Essa realização e a lembrança nítida em minha mente daquela madrugada fez meu coração pular e meus olhos lacrimejarem. Lá estava eu, no famoso Carnegie Hall, não como visitante, não como turista, mas como atração. Lá estava eu, em um camarim da dita casa de concertos trocando de roupa para apresentar-me com o coro em que canto em Boston. Meu sonho/devaneio de menino que usa a imaginação para voar para os lugares mais absurdos estava se tornando realidade para mim. O menino sonhou de um dia visitar o Carnegie Hall para um concerto, em vez disso, lá estava eu me preparando para entrar no mesmo palco que assisti pela televisão anos passados. Isso foi em abril de 2001, desde então, já cantei nos mais diversos lugares e alguns até mais importantes e glamorosos que o Carnegie Hall, como algumas salas de concertos na Europa e emsmo aqui nos EUA, mas aquela experiência em Nova York ficou marcada, tanto a experiência imaginativa do menino, como a realidade que se seguiu anos mais tarde.