Circa mea pectora

Na semana passada, 31 de agosto de 2008, minha mãe completou 80 anos. Já faz tempo que não escrevo nada sobre a minha mãe, mas essa ocasião é tão especial que marquei com alguns eventos simples e tocantes para mim. Liguei para casa como de costume para celebrar  o evento. Lembrei-me dos muitos aniversários de minhã mãe quando ligava para casa para falar aquelas coisas que normalmente a gente fala nessas ocasiões. O tradicional “parabéns”, os desejos de muitos anos com saúde e multiplicados infinitamente de acordo com nossos desejos. Também parte desse dia de muitas memórias foi lembrar de quando era criança durante essas datas significativas. Lebranças dos esforços constantes de minhas irmãs para que a cada ano essa data fosse celebrada com surpresa, como se fosse a primeira vez que estivesse acontecendo. Lembro-me das muitas visitas que aconteciam durante o dia, as muitas pessoas que passavam por casa demonstrando carinho e atenção para com minha mãe. Todos nós em casa crescemos com a realidade de que nossa mãe não era só nossa, sempre tivemos que a compartilhá-lha com muitas pessoas que, não somente a consideravam como tal, mas que a chamavam de mãe Valdice, com direito a tomar bênção e tudo. 

 

80 anos. Quando paro para pensar com a racionalidade que insiste em entender a vida de minha mãe, fico imaginando toda essa tragetória. Lembro-me que um dia sentamos e conversamos muito sobre a história oral de nossa família. Conseguimos traçar a história da família até o ano de 1852. Ela nasceu em uma cidade no interior do Estado do Sergipe, teve lá suas alegrias de menina crescendo em uma fazenda durante os anos 20 e 30. Apesar dos protestos da família, casou-se aos 14 anos com meu pai e, aparentemente, fugiram para o Rio de Janeiro para começarem uma nova vida. Aos 17 anos teve sua primeira filha, seguida de outra filha e depois, finalmente, um menino e para completar nasceu mais uma filha. “Para completar”, era o que se pensava, até que 15 anos depois do nascimento dessa “última” filha eu apareci como uma grande surpresa para toda a familia. Guardo com carinho uma foto em que meus pais estão comemorando 25 anos de casados à volta de uma mesa de festas cercada de familiars e amigos, ali em um cantinho da mesa com uma camisa listrada e boné na cabeça, estou eu  agarrado à mesa o mais próximo possivel da minha mãe, estava com 3 anos de idade. Uma criança a essa altura da vida é um desafio para qualquer pessoa. Foi um desafio para minha mãe, mas muito mais para minhas irmãs que tiveram a adolescência “comprometida” com as responsabilidades de “ajudarem a criar” um pirralho que passou a ser o centro da atenção de todos em casa. Só tenho a agradecer a eles pelo que fizeram por mim.

 

Domingo 31 de agosto de 2008 – 80 anos de uma vida a ser lembrada, celebrada, honrada e preservada. 80 anos construindo sonhos, vivendo decepções, alegrando-se com o desenvolver da vida, chorando por aquilo que doía e parecia não poder ser mudado.

 

Escrevo isso tudo no dia 06 de setembro de 2008, já faz uma semana que comemoramos os 80 anos de minha mãe. Hoje relembramos que fazem 2 anos que ela foi morar em outras paragens.  Dois anos que nos deixou fisicamente. 24 meses desde aquele dia em que ficou confirmado de que ela já havia cumprido seu tempo entre nós. Minha mãe faleceu depois de um longo período sofrendo do mal de Alzheimer. Lendo alguns trechos de coisas antigas que escrevi sobre minha mãe, achei essa narrativa de meu primeiro encontro com ela com a doença já em estado avançado:

“A grande expectative era a de como minhã mãe reagiria à minha presença. Para quem não sabe, minha mãe sofre do mal de Alzheimer e anda bem debilitada. O primeiro encontro com ela foi de indiferença, ela não tinha idéia de quem era aquela pessoa na frente dela rodeada de gente perguntando-a se ela lembrava-se de mim. Com o ar educado que sempre foi uma cracterística forte em sua personalidade, minha mãe cumprimentou-me, mas parecia contente em conhecer mais um estranho que diziam ser seu filho.

À noite fui para o quarto dela e ficamos conversando banalidades, podia ver-se que ela estava tentando relembrar quem eu era. Finalmente passou a chamar-me pelo nome e apelido caseiro e passou a conversar coisas que faziam mais sentido e demonstravam que ela lembrava-se de mim. Antes de dormir, ela chamou meu sobrinho e perguntou se ele havia tido um bom dia, ele disse que sim, depois ela disse que o dia dela foi muito bom porque eu estava em casa. Hoje pela manhã ela perguntou se eu já havia acordado, mas quando acordei e fui conversar ela já estava em outro mundo. O estado dela é assim, ela vai e volta. Minhas irmãs cuidam dela com todo o carinho do mundo e realmente tem que se ter muita paciência porque a todo momento minha mãe as chama para fazer alguma coisa. Ontem à noite, enquanto tomava uma injeção, ela me viu, sorriu e acenou. É engraçado como a gente passa a valorizar esses poucos momentos de lucidez que em outras ocasiões seriam quase banais”

 

Minha querida mãe, parabéns pelos 80 anos, obrigado por tudo e descanse porque a senhora merece!

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